(Publicado no Correio de Salvador* em 25/11/2008)
Recebido por mim através da Komuna Raulseixistika
Filme sobre o artista acende disputa entre suas herdeiras.
Raul Seixas (1945-1989) virou mito, idolatrado como profeta pelos fãs. Entre sua família, porém, as questões giram num campo bem menos filosófico. Transitam na tortuosa seara econômica, para falar claramente. Raul, o início, o fim e o meio, cinebiografia dirigida por Walter Carvalho, que tem previsão de lançamento para agosto, foi o estopim de uma disputa que vem pairando sobre as herdeiras há anos. Sim, há herdeiras, coisa que muito pouca gente sabe. Três, na verdade: Simone Vannoy (38), Scarlet Vaquer (33), que moram nos EUA desde pequenas, e Vivian Seixas (27), que vive no Brasil. As duas primeiras, filhas da união de Raul com Edith Wisner e Gloria Vaquer, respectivamente. E a terceira é fruto do relacionamento com Kika Seixas. De acordo com Renato Pacca, advogado que representa Scarlet no Brasil, o problema é que Kika Seixas assinou um contrato no qual colocava a si própria como co-produtora da obra, com ganho estipulado em 5% dos rendimentos, quando as herdeiras receberiam um total de 3,5%, cada uma. “Entramos em litígio para impedir isso. Ela receberia mais do que as herdeiras? Cancelamos aquele contrato e estabelecemos um outro no qual ela recebe 1% como consultora escolhida pela filhaVivian. As herdeiras agora têm 17% para dividir entre elas. Pois bem, o que os fãs também não sabem é que o espólio de Raul é basicamente formado por direitos autorais e de uso de sua imagem, cujos rendimentos são divididos igualmente entre as filhas. agora com o filme”, diz o advogado. “O que chateia as duas herdeiras é o posicionamento de Kika como viúva e curadora do patrimônio de Raul. Ela não é nenhuma das duas coisas. Primeiro porque nunca foi casada com ele. Depois porque para qualquer coisa ser aprovada tem que haver autorização das três filhas. Fizemos isso sem nenhum envolvimento passional, mas com profissionalismo e respeito às herdeiras”, diz o advogado. Já houve casos em que ela autorizou sozinha ou começou a negociar o uso da imagem de Raul sem nosso conhecimento, como aconteceu agora com o filme diz o advogado. Procurada pelo CORREIO, Kika Seixas, penúltima companheira de Raul, diz que o que tem a dizer não interessa ao público. Mas não resiste. “Se não sou eu a responsável pelo patrimônio artístico de Raul há 20 anos, então quem é? Aquele advogado idiota?”, provoca. Pacca esclarece. “É uma inverdade que a senhora Kika seja responsável pelo patrimônio artístico de Raul. Nunca o foi. Somente suas três herdeiras detêm direitos sobre a obra de Raul”, afirma ele, que tem blog sobre direito hospedado no site do jornal O Globo. “A questão é que Kika foi a mulher mais presente na vida de Raul, a que esteve perto na fase que ele mais apareceu na mídia. Então a imagem dela ficou associada a dele, sendo equivocadamente, conhecida como única mulher de Raul, mãe de sua única filha. Mas, tanto eu quanto o Renato, queremos conscientizar as pessoas de que existem outras duas herdeiras”, afirma Flávia Vasconcelos, especialista em propriedade intelectual (ramo do direito que inclui direitos autorais) e representante da herdeira Simone Vannoy.
Quando Raul morreu não tinha nada para chamar de seu. O apartamento na região da Avenida Paulista era de aluguel, não tinha carro e nenhuma propriedade. Tudo o que deixou foi sua imagem e as músicas que compôs. “As coisas foram deixadas à deriva até que Kika começou a tomar a frente. Até pouco tempo atrás era ela quem resolvia as coisas. Quando o filme começou a ser produzido por Alain Fresnot, começou também uma guerra de facão com raio laser entre as partes porque as outras herdeiras impediram que a produção continuasse”, relembra Sylvio Passos, 44, amigo do cantor e presidente do Raul Seixas Oficial Fã-Clube. Parece não ser somente uma briga por dinheiro esta que vigora entre os membros da vasta família do Maluco Beleza, porque, apesar de rentável sempre, os valores repassados às herdeiras variam muito de época para época. “Agora vivemos um período morno. Mas esperamos um aquecimento em 2009 por causa do filme e dos 20 anos de morte de Raul, porque a obra dele tem peso, é valiosa mesmo”, diz Flávia. O que tanto os advogados quanto Sylvio Passos fazem questão de afirmar é que o mais importante é manter a chama de Raul sempre acesa. Como amigo, admirador e presidente do fã-clube, trabalho para manter o nome dele. É uma pena que sua família não se entenda”, arremata Passos. A reportagem tentou levantar os valores da herança, mas as fontes não quiseram revelar.
Maior Fã esteve presente na reta final de Raul
O produtor cultural Sylvio Passos foi um dos poucos que tiveram acesso a Raulzito na reta final, antes dele ser encontrado morto por sua empregada na manhã de 21 de agosto de 1989. E não era uma boa coisa de se ver, garante. "Foi muito complicado, Raul entrou numa depressão profundíssima, da qual não conseguia sair. Foi um processo de degradação enorme. Ele quase não saía de casa. O alcoolismo foi a maior tragédia da vida dele. Com seqüelas muito graves do vicio (a diabetes, entre elas), Raul já não tinha dentes, não conseguia se articular direito. Era apenas uma sombra do homem que marcou o rock nacional com letras revolucionárias e postura irreverente. "Ele era muito vaidoso, mas já estava andando em slow motion. Quando o personagem que criou, e no qual se aprisionou, começou a deteriorar, ele pirou. Com 44 anos, parecia que tinha 60", diz Sylvio. Ainda tinha a distância das filhas. "Toda vez que falava nisso, ele chorava muito", conta. As lembranças que guarda não são somente as ruins. O Raul generoso, sentimental, genial também se faz presente nas memórias de Passos, autor de “Raul Seixas, uma antologia”: "Era uma pessoa maravilhosa”.
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